Descrição
Livro de poemas de Manuela Vieira
Hoje escutei o som dos passos ligeiros, dos passos cansados, dos passos apressados e lembrei-me dos meus; não eram valsa, nem tango. Sobejava sombra e faltava claridade. Raramente olho para dentro como devia, dou-me conta disso; pouco sei do que habita a minha alma. Oh! Pelos vistos desperdicei uma vida, ou, às tantas, muitas delas, nas quais embarquei e deixei-me levar
pelo vento.
Mas o que eu vi hoje… O que vi! Ah! O que vi hoje foi encantador.
Era uma mulher com rugas de riso
Parecia que desembrulhava pedaços de vida
Que carregava o dom de suportar.
Era uma mulher com rosto de criança
Não aquela que ainda não cresceu
Mas a que muitas vidas percorreu.
Como quem caminha por cima de um rio adormecido
Era uma mulher tão cativante
Cheirava a eternidade.
Não a eternidade ainda não vivida
Mas aquela que conhece o tempo das paridas.
Era uma mulher que mingara em altura
Guardava segredos da paciência
Emprenhada de glórias e formosura
Conquistadas por lágrimas apagadas, sem ciência.
O que vi hoje foi incrível
Fiquei cheia de chuva farta
Era tanto milho que cresceu
No tempo seco que em mim se afogou.
Ela sorria, pisava o momento
Regado de idades suculentas
E eu, aí, engravidava de espantos!
Hoje, quisera encontrar o meu silêncio e percebi que suportar o
que achava abominável, não é mais do que a oportunidade de
me encontrar comigo mesma, sem alaridos, nem masoquismos.
Um encontro nu e cru, na transpiração das melodias que esbatem
as ruas, as esquinas e os passeios por onde ando.
Mergulhar na minha essência e olhar de frente o sonho, lutar por
ele, é a aventura mais incrível da existência. Nela cabem todas
as aspirações e quem sabe os insonhados ou, até mesmo, os
insonháveis desejos da coragem.
Insonhada Aventura é desafio que abraço para fazer acontecer o
que deve ser feito. Não é à toa que me deram este nome.
Maria Acontece





